sábado, 21 de novembro de 2015

A Arte pela Arte, somente...

                                                                            (Parnaso  - Nicolas Poussin)


       Na segunda metade do século XIX, com o grande "progresso" ocorrido (Belle Époque!), com toda a filosofia positivista que entoava louvores para o XIX das graças da ciência, da tecnologia e da economia...
    ...Não há cenário mais propício para que surja uma nova forma de se pensar a Poesia (com "P" maiúsculo), um novo movimento, que, diferente do realismo e naturalismo, não se importava em fazer acusações ou, até mesmo, críticas sociais (e muitas vezes profecias do rumo à decadência que caminhava toda a humanidade).
       A Arte pela Arte! essa era a principal ideia que pregava o Parnasianismo. Voltados para o modelo clássico greco-romano, os poetas parnasianos tomavam a arte como um exercício, totalmente racional e objetivo (como gregos e romanos compunham, eles tinham "O" modelo a ser seguido). 
           Não interessava a eles, parnasianos, nada que fosse subjetivo (tanto que o movimento surgiu em contraponto ao que foi o Romantismo), só deveriam fazer, e saber fazer de forma perfeita e estruturada ("Falemos de vasos, enchentes... ou qualquer coisa que possamos provar o quanto somos bons!").
         O Parnasianismo consistia em composições muito bem trabalhadas (quanto a forma, o fundo era qualquer coisa que aparecesse), havia a paixão por formas fixas de poemas (o soneto era um exemplo); a métrica é totalmente rigorosa, nada de pobreza nas rimas (nada de Ana rima com Banana), deveriam ser ricas, com classes gramaticais diferentes; todas essas regras parnasianas só, na maioria das vezes, levavam a uma coisa: um grande descritivismo.


Horas Mortas

Breve momento após comprido dia
De incômodos, de penas, de cansaço                  Pena:  penitencia, punição, castigos
Inda o corpo a sentir quebrado e lasso,               Lasso: cansado, esgotado
Posso a ti me entregar, doce Poesia.

Desta janela aberta, à luz tardia
Do luar em cheio a clarear no espaço,
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo
Na transparência azul da noite fria.

Chegas.  O ósculo teu me vivifica                        Ósculo: beijo
Mas é tão tarde!  Rápido flutuas
Tornando logo à etérea imensidade;                     Etérea: que está elevado, acima

E na mesa em que escrevo apenas fica
Sobre o papel — rastro das asas tuas,
Um verso, um pensamento, uma saudade.

                                               (Alberto de Oliveira)

       Temos, como exemplo, este poema de Alberto de Oliveira (1859 - 1937), o alcunhado, em sua época, de Príncipe dos Poetas Brasileiros; poeta tido como o mais parnasiano de todos os parnasianos (apesar que, em um momento de sua vida, beira ao romantismo); foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras . É um perfeito descritivista, pintador de cenas, grande narrador. 
         Vemos, em Horas Mortas, a descrição de um poeta que busca e espera a inspiração, justamente ao fim de um dia "De incômodos, de penas, de cansaço [...]" , é somente àquela hora que ele pode se entregar: "[...] a ti me entregar, doce Poesia". Após esse "preparo", essa acomodação, é que ele se senta à mesa para compor, mas espera que a inspiração venha. Pinta um cenário aconchegante e inspirador:  Desta janela aberta, à luz tardia / Do luar em cheio a clarear no espaço, [...]; e, depois, sente que, finalmente, a inspiração chega, personificada :

[...]
Vejo-te vir, ouço-te o leve passo


 a noite é azul e fria. Finalmente ela chega, beija a face do poeta, mas... "Mas é tão tarde!  Rápido flutuas/ Tornando logo à etérea imensidade;".
        Sobra somente a frustração, pois não há mais nada, já se foi e "Sobre o papel — [ficou somente] rastro das asas tuas,/ Um verso, um pensamento, uma saudade." A inspiração se vai e o poeta se frustra.
           
        O poema é exemplo vivo da composição parnasiana. Temos a preferencia pelo soneto (forma fixa, dois quartetos e dois tercetos) em decassílabos (dez sílabas poéticas):

Bre/ve/ mo/men/to a/pós/ com/pri/do/ di/a
1      2      3       4        5      6         7       8     9  10

Com rimas em ABBA ABBA CDE CDE não chega a ser ousado ou inovador. A sonoridade não é uma das preocupações, o que importa é fazer, fazer não de qualquer forma, mas de forma grandiloquente. 

Mayke Suênio
                                                                                                                                  
                                                                                                            







     Em As Pombas, ao contrário do que ocorre em Horas Mortas, Raimundo Correira (1859 - 1911)  


foge um pouco do racionalismo puro, apresentando uma tênue marca subjetiva.

As Pombas


Vai-se a primeira pomba despertada...

Vai-se outra mais.... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada

Sora, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,

Os sonos, um por um, célebres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

Nos azul da adolescência as asas soltam,

Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

                                                      (Raimundo Correia)



O que aparenta ser inicialmente um simples poema descrevendo pombas que abandonam pombais, acaba por se transformar em uma narrativa que olha para o interior, se opondo às conveniências do movimento parnasiano que preserva a racionalidade, a arte como uma forma de apresentar a materialidade concreta e boa do mundo. Entretanto, nesta obra de Correira, somos capazes de observar a estrutura fixa do poema, um Soneto Decassilábico e o uso de um vocabulário mais erudito.

 Nos azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...



No trecho destacado vemos que o autor usa de metáfora, ao contrário do que vemos no poema anterior, onde o autor realiza uma narrativa direta, como podemos destacar este verso:


E à tarde, quando a rígida nortada

Sora, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...


Entretanto a forma fixa está presente em ambos, e a preocupação com o uso de um vocabulário erudito, muitas vezes incomum, é facilmente visível, caracterizando, assim, duas marcas fundamentais do Parnasianismo.

Beatriz Xavier



Mal Secreto


Se a cólera que espuma, a dor que mora    
N’alma e destrói cada ilusão que nasce;     
Tudo o que punge, tudo o que devora         
O coração, no rosto se estampasse;                      

Se se pudesse o espírito que chora            
Ver através da máscara da face,                
Quanta gente talvez que inveja agora         
Nos causa, então piedade nos causasse!  

Quanta gente que ri, talvez consigo            
Guarda um atroz, recôndito inimigo,            
Como invisível chaga cancerosa!               

Quanta gente que ri, talvez, existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
                                                   (Raimundo Correia)

Rima: Apresenta rima no esquema alternado ABAB (os quartetos) e CCD ( os tercetos)
Estrutura estrófica: Soneto
Versos isoméricos - decassílabos.
 Métrica: 14 versos
 Ritmo: Marcado pela sonoridade, e nas rimas a marca do tom consistente e forte, alternadas nos quartetos e misturadas nos tercetos.
Rimas ricas:              chora agora
                                   consigo inimigo
                                   face causasse
Rimas pobres:          Todas as outras, são todas consoantes e graves.
 Tipo de Poema: Soneto Parnasiano

 ANÁLISE DISCURSIVA:
        A filosofia retrata a alma humana, durante o discorrer dos versos  percebe-se que o autor dá a entender que a nossa tristeza e angustia são escondidas no íntimo e que na maioria das  vezes fica imperceptível.
     Paradigma Idealização de que a alma transmite o que sente, no entanto, muitos possuem a máscara que esconde esta realidade. A fuga como se olhar olho no olho não diria verdade alguma, ou talvez dissesse tudo, visto que os casais que o fazem, muitas vezes se enganam, pois os olhos que choram, nem sempre é de tristeza.
   Mesmo que um individuo não esteja feliz, seus olhos, sorriso ou atitudes podem mostrar o contrário, e as pessoas não percebem todo mal que o aflige. Nem todo sorriso é sinal de felicidade, e muitos deles podem demonstrar a fuga de uma situação desesperadora.
    Na primeira estrofe o 'Se' - indica uma hipótese de se poder ver o que vai no íntimo de cada um; a 'Espuma' - termo que mostra a violência da cólera;'Mora' - persistência da dor;'Destrói' - mostra a violência da dor;'Cada' - todas as ilusões; uma por uma, à medida em que nascem;'Estampasse' - a dor aparece claramente.
    Na segunda estrofe quando ele diz 'Espírito que chora' - por suposição, que seja uma referencia a violência da dor;'Máscara da face' - sugere hipocrisia;'Quanta gente' - dá a ideia de muita gente, não da totalidade.'Talvez' - dúvida relacionada ao sentimento de piedade que poderia ser dispertado com conhecimento da realidade;'Inveja e piedade' - ideias opostas
   Nos tercetos ''Atroz inimigo' - e 'chaga cancerosa' - duas expressões que reforçam a ideia de intensidade e persistência da dor;'Recôndito' e 'invisível' - adjetivos que demonstram o disfarce da dor;'Então' e 'agora' - estes termos indicam os dois planos em que o poema se desenvolve: o da hipótese e da realidade;'Ri' - concretização da hipocrisia;'Ventura única' - satisfação encontrada em enganar os outros;'Parecer aos outros' - hipocrisia, preocupação em esconder o sofrimento aos olhos alheios.

Localização das características da Escola a que pertence o poema:

Encontramos em todo o soneto:
a) objetivismo;
b) tema universal;
c) análise psicológica;
d) predomínio da razão sobre a sensibilidade;
e) finalidade moral;
f) linguagem cuidada;
g) preocupação com a forma.
Figuras:
Metáforas:
"cólera que espuma"
"a dor que mora n'alma"
"ilusão que nasce"
"tudo o que devora"
"tudo o que devora o coração" (metáfora e metonímia).
Anáfora:
"tudo .... tudo"
Hipérbato: as duas primeiras estrofes.

Traços do estilo do autor:
Demonstra através de sua obra grande magnitude e espírito de religiosidade e a natureza sentimental, retratando assuntos filosóficos através de seus poemas. Procura uma análise psicológica profunda, visando explicar os problemas que mais afligem a sociedade humana. "Se a cólera que espuma, a dor que mora N’alma e destrói cada ilusão que nasce"
Nilda Sousa

Microcosmo
Pensando e amando, em turbilhões fecundos       Fecundo: que reproduz
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;                   Funesta: triste
Primaveras de invernos moribundos;                    Moribundo: prestes a morrer

A Terra; e terras de ouro em céus profundos,
Cheias de raças e cidades, estas
Em luto, aquelas em raiar de festas;
Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;
E as nebulosas, gêneses imensas,                          Nebulosa: obscura, misteriosa
Fervendo em sementeiras de astros novos;

 E todo o cosmos em perpétuas flamas...               Cosmos: Universo
 — Homem! és o universo, porque pensas,
E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

                                                                 (Olavo Bilac)



Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 – 1918) foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Juntamente com Raimundo Correia e Alberto de Oliveira forma a tríade Parnasiana brasileira. É considerado o autor mais popular do Parnasianismo, embora em sua maturidade trai-se quanto a ideia parnasiana e passa a escrever com certo sensualismo e , até, podemos dizer, com uma gota de subjetividade.
O poema Microcosmos começa apresentando duas ações, o pensar e o amar, que tornam o homem  tudo. Percebemos a descrição  do tudo que o homem é  a partir do segundo verso do poema “És tudo: oceanos, rios e florestas [...]”.  E conclui mostrando que o homem é  Deus e mundo porque  pensa e ama — Homem! és o universo, porque pensas, /E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!”.  
O poema se encaixa perfeitamente dentro da composição parnasiana. Um soneto em versos decassílabos:

Pen/san/do e a/man/do, em/ tur/bi/lhões/fe/cun/dos  
  1       2        3          4            5             6       7        8       9     10
Com rimas  em ABBA ABBA CDC DCD e presença de aliterações em S.


Tallyta Almeida



 Enquanto isso...


(A Ilha dos Mortos - Arnold Bröcklin)
                   



            Contrapondo com o Parnasianismo, temos, na mesma época, o surgimento de uma nova "escola" literária, o Simbolismo. Os poetas deste período viam todo o progresso do XIX de forma decadente, e seguiam totalmente o caminho inverso do positivismo.
                 É com muito desprezo que muitos artistas da época olhavam todo esse progresso, todo esse materialismo; isso fazia mal ao o homem, esse homem era inquieto, necessitava urgentemente de uma mudança de valores; um homem que deixasse todo o material e buscasse uma transcendência espiritual. A vida se torna enfadonha, dramática; toda a crise desencadeada por essa corrida econômica tornava-o impotente.

[...]

Mas em meio às cadelas, onças e chacais,
Macacos, escorpiões, gaviões e serpentes,
Os monstros a ganir, rosnar, pelo chão rentes,
Na fauna infame e vil dos vícios ancestrais

Existe um mais feio, e maldoso, e imundo!
Embora sem fazer grandes gestos, gritar,
É capaz de em frangalhos a terra transformar
E num só bocejar engoliria o mundo;

É o Tédio! – carregado o olhar de pranto vão,
Ao fumar seu cachimbo em sonhos mergulhado,
Tu conheces, leitor, tal monstro delicado,
- Hipócrita leitor – meu igual – meu irmão!


              (Charles Baudelaire – Ao leitor. Trad. Mario Laranjeira)

             Tem-se uma visão pessimista do mundo, com concepções decadentes, filosofias como a de Arthur Schopenhauer, que destruirá de vez com o positivismo, fez com que um novo princípio de arte surgisse. 
        Uma escola que retoma alguns preceitos do romantismo, porém de forma modificada a seus ideais. Sensibilidade, espiritualidade, misticismo, musicalidade, jogos sinestésicos, um apelo simbólico, subjetividade, estas são algumas das características do Simbolismo.



  •   Enfim, a pretensão dos simbolistas de trazer ao mundo uma poesia nova não harmonizou bem com o sentimento de fadiga entre eles, ao ponto de se proclamarem “poetas da Decadência”, falando de “fin du siècle” como se fosse o ‘Fim do Mundo’. (CARPEAUX, 1900-1978)




              Vejamos um pouco disso representado em um poema do simbolista brasileiro Alphonsus de Guimarães (1870 - 1921), Ismália:


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar... 
                      
                           (Alphonsus de Guimaraens)


      Vemos, já de cara, as fortes características deste poema simbolista, que vai totalmente em desencontro quanto ao ideal estético dos poetas parnasianos. Este poema, que não é de forma fixa, como preferem os parnasianos, é composto por heptassílabo, ou seja, redondilha maior (sete sílabas poéticas),


Quan/do Is/má/lia en/lou/que/ceu,

    1       2          3       4         5      6        7


... sugere uma subjetividade. Apresenta o que mais pregavam os simbolistas: o desapego ao material - o corpo - e a busca de uma transcendência espiritual - a alma - (um olhar para o de-dentro):


[...]
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar... 



        Outra característica muito forte é a sonoridade dos versos, as aliterações com som de "s" e as anáforas em "a" causam um efeito sonoro incrível, chegando a sugerir imageticamente o barulho do mar, o ir e vir das ondas, sonorizando e dando ritmo ao poema (veja na estrofe anterior).

             No poema simbolista, diferente do parnasiano, nada é o que parece ser, sempre busque alguma subjetividade, não é somente a descrição de algo.


Referências bibliográficas:


ABDALA J, Benjamin, PASCOALIN, Maria Aparecida. Decadentismo-Simbolismo. In__: História social da literatura portuguesa. São Paulo: Ática, 1985 (2ª ed), p. 122-133.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Pulo: Cultrix, 2013 (49 ª ed.).

 BAUDELAIRE, Charles. Ao leitor. In__: As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 23-24.

CARPEAUX, Otto Maria. O simbolismo. In__: História da literatura ocidental: vol. IV. São Paulo: Leya, 2011.

FAUSTINO, Mário. Percursor do moderno. In__: Artesanatos de poesia: fontes e correntes da poesia ocidental. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 63-64.

GOMES, Alvaro Cardoso. A estética simbolista. São Paulo: Cultrix, 1985, p. 7-29.

MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012 (29 ª ed).

MOISÉS, Massaud. Simbolismo. In__: A literatura portuguesa. São Paulo: Cultrix, 1960 (25ª ed), p. 207-233.

Nós que aqui estamos, por vós esperamos. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=-PXo5oGztiw> . Acesso em 08 de nov. de 2015.



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