quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Um pouquinho de Francisca Júlia, Olavo Bilac, Teófilo Dias e Artur Azevedo


‘A um artista’ de Francisca Júlia, poetisa do parnasianismo no Brasil.



Por Mara Lucia Souza Martins

A um artista

Mergulha o teu olhar de fino colarista¹
No azul: medita um pouco, e escreve; um nada quase:
Um trecho só de prosa, uma estrofe, uma frase
Que patenteie a mão de um requintado artista.

Escreve! Molha a pena, o leve estilo enrista*!
Pinta um canto do céu, uma nuvem de gaze
Solta, brilhante ao sol; e que a alma se te vaze
Na cópia dessa luz que nos deslumbra a vista.

Escreve!... Um céu ostenta o matiz² da celagem**
Onde erra o sol, moroso, entre vapores brancos,
Irisando³, ao de leve, o verde da paisagem...

Uma ave banha ao sol o esplêndido plumacho4...
Num recanto de bosque, a lamber os barrancos,
Espumeja em cachões uma cachoeira embaixo...




Aspectos estilísticos e morfossintáticos:
ü  Poema de forma fixa: Soneto- dois quartetos e dois tercetos;
ü  Rimas interpoladas e agudas-(ABBA) nos quartetos e encadeadas nos tercetos. (CDC) no primeiro terceto e (EDE) no segundo terceto;
ü  Presença de rimas consoantes: ‘frase- quase’, ‘colarista-artista’ na primeira estrofe;
ü  Rimas pobres- mesma classe gramatical:
brancos – barrancos’
ü  Rimas ricas- classe gramatical diferente: substantivo/verbo- ‘gaze-vaze’, substantivo/advérbio- ‘plumacho- embaixo’;
ü  Metrificação- em versos alexandrinos clássicos:





Mer/gu/lha o/teu/o/lhar/de/fi/no/co/la/ris/ta
No a/zul:/me/di/ta um/pou/co, e es/cre/ve; um/na/da/qua/se:
Um/tre/cho/só/de/pro/sa, u/ma es/tro/fe, u/ma/fra/se
Que/pa/ten/teie/a/mão/de um/re/quin/ta/do ar/tis/ta.

Es/cre/ve!/Mo/lha a/pe/na, o/le/ve es/ti/lo em/ris/ta!
Pin/ta um/can/to/do/céu,/u/ma/nu/vem/de/ga/ze
Sol/ta,/bri/lhan/te ao/sol;/e/que a al/ma/se/te/va/ze
Na/có/pia/de/ssa/luz/que/nos/des/lum/bra a/vis/ta.

Es/cre/ve!... Um/ céu/os/ten/ta o/ ma/tiz /da/ce/la/gem
On/de e/rra o/sol/,mo/ro/so, em/tre/va/po/res/bran/cos,
I/ri/san/do, ao/de/le/ve, o/ver/de/da/pai/sa/gem...

U/ma a/ve/ba/nha ao/sol/o es/plên/di/do/plu/ma/cho...
Num/ re/can/to/de/bos/que, a/lam/ber/os/ba/rran/cos,
Es/pu/me/ja em/ca/chões/uma/ca/cho/ei/ra em/bai/xo



ü   Tempos verbais- presente / indicativo – verbos de ação que propõe subjetividade, desejo da realidade/ possibilidade: mergulha, escreve e pinta;
ü   Pontuação- exclamação, dois pontos, reticências;
ü  Gradação- ‘um trecho de prosa, uma estrofe, um verso’- terceiro verso; e
ü  Sinestesia visual.

Comentários:
O poema em questão aloca-se no movimento literário dos parnasos, período que começa no Brasil em 1878 e se estende até a Semana de Arte Moderna em 1922. De linguagem rebuscada e métricas alexandrinas o soneto com suas rimas ricas e pobres faz a descrição de uma paisagem que visa o purismo e preciosismo vocabular, com predomínio de termos eruditos e construções sintáticas refinadas.
O primeiro quarteto se coloca convidativo a olhar esta paisagem com a exigência de um pintor ou sob um olhar do mesmo. Esta aproximação é marcada pelo verbo no presente do indicativo ‘mergulha teu olhar de fino colarista’ que é reforçado pela palavra ‘colarista’ representando tanto uma pessoa que colore como um artista quanto um fabricante de tintas que possui determinada experiência pela mistura de cores, uma intimidade com elas. Pela cor azul temos uma segunda ordem, meditar e após essa cautela se escrever o que ele chama de ‘nada quase’, elencando uma estrofe, uma frase, um verso, esta degradação enfatiza esse quase nada que parte de um ponto maior para uma menor, desde que haja essa sensibilidade de um artista.
Na segunda estrofe tem-se a descrição de ações, sempre no presente, o ato de escrever e pintar se fundem, pois inicia o quarteto com ‘ escreve seguido da exclamação como ênfase e ação de molhar a pena com firmeza complementada pelo verbo ‘enrista’ que quer dizer ‘em riste’ que é por a forma em o cavaleiro se coloca quando está para investir e após esse posicionamento pode-se pintar o sol e novamente alude a forma como se deve despontar este sol de maneira que vislumbre os olhos e entre nuvens finas, transparentes. Trazendo agora a sensação visual para quem ler em vista que se imagina o brilho deste sol.
O primeiro terceto repetindo a mesma ação de ‘escrever/pintar’ especifica este céu com nuances, mas ainda a ideia de firmeza concentrada no vocábulo ‘celagem’ que quer dizer carimbo como os quais se selam cartas. Retomando a ideia de nuvens metaforizadas por ‘vapores brancos’ neste céu que é visto por varias cores; Este visual que antes se fixava em cima começa a ter suaves verdes dos bosques, então comtemplamos uma paisagem que se atém a uma visão mais mediana.
É ainda nesta perspectiva medial que se constrói o restante da paisagem com a ave que se banha ao sol e suas penas, e as espumantes águas de uma cachoeira que se comportam sutilmente em um recanto do bosque.
O efeito dessa descrição percebe-se a habilidade de criação dos versos para a inspiração desta paisagem, essa vontade da arte pela arte, bem como a impessoalidade dessas descrições objetivas resultam claramente na meditação nas cores anunciada na primeira estrofe em que se parte do azul, depois pelas nuances do amarelo, pelo verde dos bosques e finda com o branco da pena da ave e as espumas das águas da cachoeira.

Sobre a autora:
Este soneto é de Francisca Júlia da Silva da sua principal obra de 1895. Ela que nasceu em 1871 em Eldorado Paulista (SP) é umas das poucas mulheres que tiveram reconhecimento na literatura brasileira nesta época, teve participação na imprensa paulista em jornais e revistas e publicou quatro livros Mármore (1895), Livro de infância (1899), Esfinges(1903) e Alma Infantil(1912) em parceria com seu irmão Júlio da Silva. Francisca Julia faleceu em São Paulo em 1920, é considerada por alguns como a ‘deusa’ do parnasianismo.

Referências Bibliográficas:
FRANCHETTI, Paulo. Francisca Júlia. Disponível em:  <http://www.bbm.usp.br/node/89> Acesso em: 23 nov. 2015.
PIMENTEL, Carmen. Parnasianismo. Disponível em  <http://educacao.globo.com/literatura/assunto/movimentos-literarios/parnasianismo.html > Acesso em: 23 nov. 2015.

Alguns comentários sobre “A um poeta (*)” de Olavo Bilac  (**)

Por Tatiane dos Santos Ramos Arantes

“Nos trinta e cinco sonetos de Via Láctea, o poeta encontra o seu motivo mais caro, o amor sensual, vivido numa fugaz exaltação. Vaza-o em ritmos neoclássicos, próximos de Bocage e, mais raramente, de Camões (...).” (BOSI, 1974, p. 255)


A um poeta



Longe do estéril1 turbilhão da rua,
Beneditino2, escreve! No aconchego
Do claustro3, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima4, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício5
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimigo do artifício6,
É a força e a graça na simplicidade.


(*) interdiscursividade com A um poeta, de Antero de Quental. Conforme disponível em: < http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pidp/pidp010796.htm>

Alguns aspectos estilísticos:

ü  Poema de forma fixa]Soneto: dois quartetos / dois tercetos;
ü   Combinações das rimas em paroxítonas ] (graves) ABBA (interpoladas) / BAAB (interpoladas) / CDC (encadeadas) / DCD (encadeadas);
ü  Rimas ricas] (classes gramaticais diferentes):
rua x sua / aconchego x sossego / emprego x grego / construa x nua / agrade x Verdade;
ü   Rimas pobres ] (classes gramaticais iguais):
 Suplício x edifício x artifício / Verdade x simplicidade;
ü  Metrificação ] versos decassílabos:

Exemplos e classificações:
Lon/ge/do es//ril/tur/bi/lhão/da/rua, (1º verso/1º estrofe)decassílabo sáfico (4ª, 8ª e 10ª sílaba)
Mas/que/na/for/ma/se/dis/far/ce o em/pre/go (1º verso/2º estrofe)decassílabo sáfico (4ª, 8ª e 10ª sílaba)
Não/se/mos/tre/na//bri/ca o/su/plí/cio (1º verso/3º estrofe) decassílabo heroico (6ª e 10ª sílaba)
Por/que a/be/le/za,//mea/da/Ver/da / de, (1º verso/4º estrofe) decassílabo heroico (6ª e 10ª sílaba)

ü   Tempo verbais ] presente/indicativo = proximidade / imperativo) = persuasão
ü  Pontuação ] (exclamação, dois pontos, ponto e vírgula, vírgula e ponto)
ü  Gradação ] exemplo 3º e 4º verso < Do claustro, na paciência e no sossego / Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! >; e
ü   Repleto de metáforas / comparações ] < Longe do estéril turbilhão da rua, / Rica mas sóbria, como um templo grego>.

Comentários relevantes:
Uma das possíveis leituras de A um poeta de Olavo Bilac, extraído da coletânea Via Láctea, uma das partes da obra Poesias em 1888, é dele tratar-se de poema metalinguístico visto que o eu-lírico disserta sobre o modo em bem fazer arte. Sim, com uma estrutura similar à dissertação e em um tom bastante eloquente preza a produção perfeita de não só a sua poesia, mas àqueles que também se dizem poetas. Isso pode ser comprovado em consonância à utilização dos modos e tempos verbais, indicando proximidade e teor altamente persuasivo perante o leitor. Além do cuidado rebuscado quanto à utilização de pontuação, tais como, simultaneamente em: <escreve!> e < É a força e a graça na simplicidade.>.
O poeta que fugir do <estéril turbilhão da rua> agirá com sensatez. Pois, só ao privar-se dos acontecimentos externos a ele, os quais não trarão frutos, e ir para um local sossegado, há de se conseguir um bom trabalho, passível e permissível de muitas melhoras. Nesse ciclo construtivo, comparativamente à cultura < Rica mas sóbria, como um templo grego>, é que o poeta encontrará os moldes de serem construídas as poesias, até que se chegue à perfeição. Nesse sentido, a epígrafe em destaque sobre as produções literárias de Bilac do professor Alfredo Bosi foi perspicaz, em sinal de aproximá-las às da cultura neoclássica, assim como o fez com Bocage.
Para tanto, demonstrou-se acima em alguns aspectos estilísticos como nesse poema foi construído a defesa da arte pura. Isto é, ao mesmo tempo em que se demonstra como se faz um poema em defesa da poesia parnasiana, por justamente ser o movimento literário de Olavo Bilac, critica-se o modo de narrar dos românticos e dos realistas - entretanto, em hipótese deve-se confundir Olavo Bilac com eu-lírico. Pelo fato, de um lado, os acontecimentos ocorridos no cotidiano deles influírem, de certa forma, à temática romancista, em sinal dos exageros sentimentais e individualista (subjetivismo) do eu. E, por outro lado, muito mais explícitos nas formas temáticas realistas, pois nelas se fazem presentes a busca do engajamento social e político em suas análises da realidade propriamente dita, como se vê o poema de Antero de Quental evocar.
Portanto, apesar do Parnasianismo também tratar de temas relacionados à realidade, eles são totalmente impessoais quanto a isso, a toca levemente, segundo Bosi (1974). Sendo possível afirmar, dessa maneira, que estes dois últimos movimentos elencados (Romantismo e Realismo) agem, em certo aspecto, distintamente do lidar com a arte do Parnasianismo de Bilac. Da mesma forma, como se poderá intuir, em maior importância comparativa, com o movimento Simbolista, quando mais adiante for exposto um poema que o represente.

Sobre o autor:
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de janeiro em 1865 -1918). Antes de se interessar por jornalismo (ser cronista e poeta parnasiano brasileiro), cursou medicina e direito, os quais ele não chegou a concluir. Foi considerado em 1907 o primeiro “príncipe dos poetas brasileiros”. Obras publicadas: Poesias, 1888; Poesias infantis 1904; Crítica e Fantasia, 1906; Conferências Literárias, 1906; Ironia e Piedade, 1916; A Defesa Nacional, 1917, Tarde, 1919.


Referências Bibliográficas:
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 1974. (p. 254-267)
GOLDSTEIN, Norma. Versos, sons e ritmos. São Paulo: Ática, 1999.
MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à Estilística. 4. ed. rev., 2. reimpr. São Paulo: EDUSP, 2012.

‘Olhos Azuis’ de Teófilo Dias
Por Talles Queiroz de Freitas
Olhos Azuis  
Na/ luz/ que o/ teu/ o/lhar/ a/zul/ trans/pi/ra
Há/ sons/ es/pi/ri/tu/ais/, i/ne/bri/antes,
Or/va/lha/dos/ de/ lá/gri/mas/ — vi/bran/tes
Co/mo as/ no/tas/da/ gus/la/ que/ sus/pi/ra.

A har/pa/, o/ ban/do/lim/, a/ flau/ta, a/ li/ra,
As/ vi/bra/ções/ su/a/ves/, cin/ti/lan/tes,
Fa/ce/ta/das/, flo/ri/das/, pro/vo/can/tes,
Do/ pia/no/ que/ ri/, cho/ra/ e/ de/li/ra,

Não/ tra/du/zem/ o/ rit/mo/ si/len/ci/oso,
O/ per/fu/me/ pris/má/ti/co/, a/ ma/gia
Do/ teu/ o/lhar/ in/quie/to/, vo/lup/tu/oso,

Que/ me/ le/van/ta em/ on/das/ de/ har/mo/nia,
Co/mo/ sus/pen/so/ man/to/ va/po/ro/so
À/ flor/ dos/ ma/res/ ao/ rom/per/ do/ dia!/

O poema Olhos Azuis de Teófilo Dias faz parte da coleção de primeiras manifestações do movimento parnasiano no Brasil, sendo o poeta um dos precursores desse movimento.
Em questões estruturais, o poema de Dias é um soneto composto de versos decassílabos.  Os versos, a partir da segunda estrofe, possuem um enjambement. A divisão das rimas fica em: ABBA, ABBA, CDC, DCD.
O conteúdo do conto é a demonstração da beleza dos olhos de alguém, provavelmente de uma mulher. Há uma grande exaltação pela beleza desses olhos ao serem comparados a sons de diversos instrumentos de sinfonia suave e tocante, porém esses instrumentos não conseguem transmitir o ritmo daquele olhar.
Dias segue uma tendência antirromântica em seus escritos. Em “Olhos Azuis”, ele descreve bastante a beleza de alguma possível mulher, porém, mesmo com a exaltação, a figura feminina não é colocada em nenhum momento como a amada ou inalcançável, mostrando esse afastamento do movimento romântico.
Seu modo de descrição é bem latente. O poema realmente mostra o que diz o título, sendo a descrição de olhos azuis. Não importando aqui se são masculinos ou femininos, mas sim a forma como esses olhos agem. Isso é bem colocado na terceira estrofe do soneto, onde fala-se sobre o próprio movimento dos olhos, mostrando que não é apenas a questão da cor ou do brilho dessa coloração ocular, mas sim todo o conjunto descrito. Esse conjunto causa efeito no eu-lírico, como mostrado na última estrofe, onde o eu-lírico sente-se guiado por esse movimento dos olhos.
Um fator bem interessante que contribui para a descrição dos olhos azuis, é que instrumentos musicais e suas vibrações servem de comparação com o ritmo dos olhos. É curioso como, mesmo sendo um poema parnasiano, há uma introdução de elementos que lembram o simbolismo na questão da musicalidade. Claro, isso não é afirmação de que o poema é simbolista. Os instrumentos aqui são utilizados como elementos apenas de comparação e não estão presentes de forma sonora nos versos do poema.
           
Por Rafael Wöss Correa

'Impressões de teatro', de Artur Azevedo

Impressões de teatro
Que dramalhão! Um intrigante ousado, 
Vendo chegar da Palestina o conde,
Diz-lhe que a pobre da condessa esconde
No seio o fruto de um amor culpado.

 Naturalmente o conde fica irado,
 – “O pai quem é?” pergunta. – “Eu!”, lhe responde
Um pajem que entra. – “Um duelo!” – “Sim! Quando? Onde?”
No encontro morre o amante desgraçado.

Folga o intrigante... Porém surge o mano,
E vendo morto o irmão, perde a cabeça,
Crava o punhal no peito tirano.

É preso o mano, mata-se a condessa,
Endoidece o marido... e cai o pano,
Antes que outra catástrofe aconteça.

Métrica e rimas entre os versos:
Que /dra/ma/lhão! Um/ in/tri/gan/te /ou/sa/do,  A
Ven/do/ che/gar/ da/ Pa/les/ti/na o/ con/de, B
Diz/-lhe/ que a/ po/bre/ da/ con/des/sa es/con/de B
No/ se/io o/ fru/to/ de um /a/mor/ cul/pa/do. A

 Na/tu/ral/men/te o/ con/de/ fi/ca i/ra/do, A
 – “O /pai/ quem/ é?”/ per/gun/ta. – “Eu!”/, lhe/ res/pon/de  B
Um/ pa/jem /que en/tra. – “Um/ due/lo!” –/ “Sim!/ Quan/do? On/de?” B
No en/con/tro /mor/re o a/man/te/ des/gra/ça/do. A

Fol/ga o in/tri/gan/te.../ Po/rém /sur/ge o /ma/no, C
E/ vem/do/ mor/to o ir/mão,/ per/de a /ca/be/ça, D
Cra/va /o/ pu/nhal/ no/ pei/to/ ti/ra/no. C

É /pre/so o/ ma/no, /ma/ta/-se a/ con/des/sa, D
En/doi/de/ce o /ma/ri/do... /e/ cai o/ pa/no, C
an/tes/ que ou/tra/ ca/tás/tro/fe a/con/te/ça. D

O poema de Artur Azevedo intitulado “Impressões de teatro” tem como ponto forte trazer características teatrais, começando pelo próprio título. Podemos interpretá-lo como uma narração sobre o cotidiano de um conde que ao voltar da viagem recebe a notícia de um intrigante que sua mulher, a condessa, espera um filho de outro homem. O conde se depara com esse amante e os dois travam um conflito. O amante perde a batalha e seu irmão, querendo se vingar da morte do familiar tira a vida do intrigante. Logo após o irmão é preso, a condessa se mata e o marido endoidece. Chega o fim da peça.
Todo esse percurso do texto tem como característica a descrição de um acontecimento de forma pontual, sendo colocado em versos e formando um soneto de maneira a adaptar o modelo narrativo, rimando todos os versos num esquema categórico em ABBA ABBA CDC DCD. Adaptar essa peça ao esquema soneto traz uma característica marcante que encaixa com o tema dramatúrgico, pois o fechar das cortinas mostrando que o assunto é sobre um teatro é revelado na última estrofe, mais claramente percebido no último verso, marca pontual deste estilo de poema o qual considera essa particularidade como chave deste estilo, e que não desconsidera o modo de escrita teatral, por muitas vezes ter a resolução nos instantes finais dos espetáculos.
Algo que deve ser levado em conta em relação ao fundo do texto é a superficialidade a qual é tratado o assunto, descrevendo tal acontecimento apenas de uma forma a relatar tal tragédia, característica muito utilizada pelos parnasianos, época literária a qual o autor faz parte. Entrando nessa linha também é percebida uma métrica forçada, que busca a forma de um soneto com rimas em decassílabo sem preocupar-se com a sonoridade do item desenvolvido. Podemos a partir disso trazer a ideia de fundo e forma que descrevem uma realidade sem se aprofundar tanto nela, apontando características da época superficialmente, fugindo assim da profundidade que possuía o momento vivido, sem perder um ponto fundamental da literatura do século XX, que é a relação com o positivismo, com foco no materialismo desenvolvido pelo sistema em construção.
O assunto também não deixa de ser novidade para a vivência do autor, por ter feito parte do fim Imperialista, o qual barões e baronesas ainda faziam parte da sociedade. “Impressões de teatro”, mesmo com um formato que não provoque grandes reflexões, desenvolve, já começando pelo título, uma crítica a acontecimentos do cotidiano da época que eram tão intensos que podiam ser considerados ficções, em conflito com uma realidade desejada. Bom, essa pode ser uma interpretação que combina a ideia de fundo e forma com o título desenvolvido pelo autor.

Por fim, faz-se necessário suscitar um poema representativo das comparações feitas acima do movimento Parnasiano em relação, majoritariamente, ao Simbolismo, tal como segue em "A Perfeição", de Cruz e Sousa:





A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss'alma fica da clarividência
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
É dos prantos divina e pura essência.

Noss'alma fica como o ser que às lutas
As mãos conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.! 




Nenhum comentário:

Postar um comentário